segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O parto de Maia


Filha, o seu nascimento foi lindo, surpreendente e rápido! Eu passei a gravidez toda dizendo que o nosso parto seria rápido, e que qualquer hora a menos que o parto de Tito já seria bom! Escrevi um Plano de Parto enorme e até dei risada quando li depois do dia que você nasceu, não deu tempo de pensar em nada!
 
Você já chegou nos surpreendendo com o seu jeitinho apressado! A sua DPP era dia 21/09, o dia do meu aniversário e um dia depois do aniversário de seu irmão. Olha que delícia! Tínhamos a chance de dividirmos o mesmo dia! Mas não foi assim que você quis, tudo bem!  
 
No início de agosto fomos buscar seu irmão na escola e algumas pessoas me perguntaram se você nasceria dia 09/09, pois ele tinha espalhado para todo mundo que "Maia vai nascer dia nove de setembro". Dei muita risada e disse que não, pois esperaríamos a sua hora e provavelmente seria mais para o final de setembro. Comentei isso com Tarsila, a nossa doula, e ela ficou nitidamente encucada! Olhamos no calendário e vimos que essa data seria justamente o início do ciclo de uma lua cheia. Eu continuei sem dar importância.
 
Na madrugada do dia 09/09/14 eu acordei sentindo uma contração diferente das que vinha sentindo nos últimos dias. Achei estranho, levantei para ir ao banheiro e voltei a dormir. Algum tempo depois, outra contração. E outra, e mais outra e uma dor de barriga. Eu levantei para ir ao banheiro e tomar banho e seu pai acordou querendo saber o que estava acontecendo. As contrações foram ficando mais espaçadas e sumiram. Voltei a deitar e consegui dormir mais um pouco. As contrações voltaram novamente, mais um banho! Mas, com a água quente elas espaçaram novamente, voltei a deitar e tentei dormir mais um pouco. Umas 5h da manhã acordei de novo com as contrações e fui tomar o terceiro banho. Seu pai acordou, foi me ver e levou a bola de pilates para mim. Fiquei um tempão no chuveiro, procurava me concentrar na respiração e fazia alguns exercícios na bola. As contrações sumiram novamente e sugeri que seu pai fosse para o trabalho. Eu disse que caso o trabalho de parto engrenasse, pediria a ele para ir comprar as coisas da lista, pois ainda não tínhamos providenciado nada.
 
Ainda cedo me dei conta que era dia 09/09, o dia que Tito tinha dito que você nasceria! Umas 7h mandei uma mensagem para Tarsila contando como tinha sido a minha noite de contrações, disse que ainda não estava acreditando muito que engrenaria, e a primeira coisa que ela escreveu foi "Tito...". Ela sugeriu que eu colocasse compressa morna na barriga e tentasse dormir mais um pouco. Fiz as compressas tão quentes que formou uma mancha vermelha no pé da minha barriga.
 
Na noite anterior tinha combinado de ir ao shopping e ao salão com a sua tia Milena. Ela me ligou umas 8h e pouco pedindo para eu descer e eu disse: sobe aí, acho que estou em trabalho de parto! Ela subiu com Ceci, sua priminha. Ficamos conversando, Ceci fez muito carinho na minha barriga, a coisa mais linda do mundo! Milena começou a cronometrar as contrações, fazer massagens e colocar em prática os aprendizados do curso de doula que ela tinha feito no último final de semana. Fomos cobaia dela, doula aprovada! As contrações estavam com intervalos bem irregulares, mas tinham uma duração longa, que variavam de 40 segundos até 2 minutos. Ligamos para o seu pai e pedimos para ele ir providenciar as compras. Milena entrou em contato com Tarsila e ela sugeriu que eu deitasse para vermos como ficariam as contrações. Deitada, os intervalos, que antes variavam de 5 a 10 minutos, passaram para 15, 17 minutos. Pedimos para Tarsila avisar a equipe e passar aqui para ver como estávamos indo. Quando ela chegou as contrações sumiram por um tempo e depois foram voltando aos poucos. Ficamos batendo papo e depois ela foi embora dizendo que poderia voltar quando quiséssemos. E a nossa manhã passou assim: contrações com intervalo médio de 10 minutos, longas, mas totalmente suportáveis.
 
Perto de meio dia seu pai chegou com as compras, e ele veio preparado para uma guerra! Comprou tanta comidinha, sorvete, uma dúzia de cocos. Pelo visto ele estava esperando um trabalho de parto igual ou mais longo que o primeiro!
 
O tempo todo eu lembrava do trabalho de parto de seu irmão e mentalmente fazia comparações dos horários, pois o início dos dois foi bem semelhante. Isso me deixou um pouco preocupada, achava que o ritmo estava muito lento e, pelos meus cálculos, você só nasceria no dia seguinte. No parto de Tito, na hora do almoço, eu já não estava mais conseguindo raciocinar, estava na partolândia há muito tempo. No seu parto eu sentei na mesa e almocei. Durante as contrações eu parava, respirava e depois voltava a comer. Sua tia Juliana, que veio almoçar conosco, olhava curiosa. Acho que ela pensou que parir é moleza! Tomara que entre para o nosso time!
 
A tarde foi chegando e as contrações foram ficando mais intensas, mas ainda com intervalos de mais ou menos 10 minutos. Milena continuou fazendo as massagens, seu pai também tentou, mas ele fazia com tanta força que doía mais que a própria contração! Depois ele me disse que fez assim pois no parto de Tito ele fazia e eu dizia: mais forte! Sua avó Ita também estava aqui, e quando vinham as contrações eu apertava muito ela! Não me lembro a hora exata, mas Tarsila deve ter chegado umas 15h e pouco e Milena foi em casa, mas voltaria mais tarde. Tarsila continuou com as massagens e fez um escalda-pés. Umas 16h sua avó saiu para resolver umas coisas e buscar Tito na escola.

Por volta de 16:30h chegou Suzana, a enfermeira da equipe. Ela pediu para seu pai descer e pegar o material no carro, sentou no chão ao lado do colchão que eu estava deitada, começou a cronometrar as contrações e fazer algumas anotações. Eu lembro de ter perguntado se estava mesmo em trabalho de parto, pois as coisas ainda estavam bem calmas. Ela riu e disse que com certeza era TP! Umas 17h chegou Carol, a fotógrafa. A partir desse momento, pelos horários das fotos, sabemos exatamente a hora que tudo aconteceu.
 
 
 
 
Depois de um tempinho ela auscultou os seus batimentos cardíacos e viu que estava tudo bem. Nos intervalos das contrações eu tremia demais, oscilava entre muito calor e muito frio. Tremia, me enrolava no cobertor, ficava morrendo de calor, suava, jogava o cobertor para lá, sentia frio de novo! Era uma sensação bem esquisita. Como as minhas contrações ainda estavam bem espaçadas, preferi ficar deitada. Tinha medo de demorar muito e eu ficar muito cansada, como no parto de Tito.
 
 
 
 
Outra coisa que fiz diferente foi aceitar comer. Seu pai toda hora me oferecia água de coco e sorvete e eu aceitava tudo. As contrações foram ficando bem intensas, Tarsila fazia as massagens, eu apertava muito o braço de Suzana e enquanto isso seu pai inflava a piscina.
 
 
 
 
Eu já estava reclamando muito das contrações e Tarsila sugeriu que eu fosse para o chuveiro. 17:19h eu sentei embaixo do chuveiro e me apoiei na bola de pilates. Nessa hora as contrações ficaram punks e o intervalo, que até então estava de 10 minutos, diminuiu bastante. Eu comecei a pirar, pedi para ir para o hospital, disse que queria uma anestesia. E mais uma vez fiquei comparando com o parto de Tito e pensei: se ainda está cedo e eu já estou assim, não vou aguentar esperar muito! Pirei mesmo! Eu apertava tanto Tarsila, torcia a calça dela, não deixava ela respirar um segundo, queria as massagens o tempo inteiro!
 
 
 

 
 
Suzana pediu para fazer um toque e eu neguei! Disse que de jeito nenhum, pois tinha medo de estar com pouca dilatação, não aceitei mesmo. Então, Tarsila sugeriu que eu mesma fizesse o toque. Eu fiz, e com espanto falei que tinha sentido uma coisa dura. Ela disse: é a cabeça de Maia! Claro que eu não acreditei! Comecei a sentir vontade de fazer força, e junto com a força eu gritava muito, vinha da alma. Nessa hora comecei a achar que poderia ser piração minha, que eu estaria me forçando a sentir essa vontade de fazer força! Olha que maluquice! Eu pensava: eu não posso estar no expulsivo, ainda nem passei pela fase ativa! E, para tirar a dúvida, 17:46h fiz outro toque e percebi que a "coisa dura" estava um pouco mais embaixo. Suzana disse: vamos para a piscina agora!
 

 
 
Levantei na mesma hora e entrei na piscina. Já fui entrando e instintivamente ajoelhei e fiquei de quatro. Fiquei muito pirada quando percebi que não tinha dado tempo de encher a piscina! Só tinha um palmo de água! Nessa hora eu senti você descendo e dei um grito: vai nasceeeeeeerrrr!!!!!!
 
 
 
 
Tarsila e seu pai correram para tentar tirar a minha calcinha. Eu sentia todos os seu movimentos da descida, senti queimando tudo! Seu pai estava preparado para te receber, e depois de uma contração senti uma força louca e às 17:53h saiu a sua cabecinha. Nesse momento a bolsa estourou nas mãos do seu pai. Suzana me orientou a não fazer mais força, esperamos menos de um minuto e você escorregou, quentinha e linda para as mãos do seu papai. A minha única reação na hora foi falar: ai, que delícia!!! E filha, pode acreditar que foi uma delícia mesmo! Seu pai me entregou você e eu te abracei com todo o meu amor!
 
 
 
 
 




 
 
Você nasceu linda, coberta de vérnix e com um cheirinho delicioso! Como eu te amo, minha moreninha! Eu ainda não estava acreditando no que tinha acontecido, era uma mistura de felicidade, surpresa, loucura! Nessa hora me dei conta que não tinha dado tempo de Dra. Sônia chegar! Filha, você não esperou a nossa obstetra!!! Três minutos depois que você nasceu sua avó Ita chegou com Tito.

 
 


 
 
 
Ele entrou dormindo no colo dela, mas logo acordou com o movimento. Ficou desconfiado, encostou na piscina e te olhou com o olhar mais lindo e mais amoroso que um irmão pode ter. Ele ficou desconfiado da cor da água e seu pai logo disse: é uma piscina de morango, pode entrar filho! Ele tirou a roupa e se juntou a nós! Era muito amor envolvido, a nossa família estava completa: eu, seu papai, seu irmão e você!
 
 


 
 
Ficamos mais um tempo na piscina curtindo o nosso momento, o nosso amor. Te coloquei no meu peito, mas você não quis mamar, ficou só me lambendo. 18:10h percebemos que o cordão já tinha parado de pulsar e, juntos, os nossos meninos o cortaram.
 
 
 
 
Saímos da piscina e ficamos deitadas no colchão, esperando a placenta sair. Fiquei um tempão com você no meu colo, te cheirando, te admirando. Você é tão linda, filha! Tem os olhos mais lindos e expressivos, eu só conseguia enxergar amor dentro deles.
 
 
 
 
Umas 20h seu pai e Suzana resolveram te pesar e te medir: 2,670kg e 49cm, a nossa miúda! Eles te arrumaram toda linda e você voltou para o colo da mamãe. Ainda esperávamos a placenta sair, mas eu já não sentia mais contrações. Suzana disse que teríamos que fazer algo, já estávamos há mais de duas horas esperando e nada acontecia. Ela deu um leve toque no cordão, na mesma hora veio uma cólica, fiz uma forcinha e a placenta escorregou. Depois Suzana suturou a laceração que tive, foi a parte chata da história.
 
 
 
 
Logo depois já chegaram sua avó Lícia, suas tias Juliana e Milena, seu tio Fábio, sua priminha Ceci e um pouco mais tarde seu avô Zuca. Todo mundo te achou a coisinha mais linda do mundo! Mais tarde também chegou Dra. Sônia, ela ficou muito triste de não ter dado tempo de acompanhar o seu nascimento. Nós também sentimos muito, pois ela é uma querida e já faz parte dos nascimentos da nossa família. Todos ficaram batendo papo, uns tomando cerveja, outros um cafézinho, e eu grudadinha em você, te dando o meu peito, te amando e te admirando.
 
 
 
 
 
 
Foi assim que você nasceu, minha pequena! Fiquei meio atordoada, foi tão rápido que precisei de alguns dias para processar tudo. Fiquei me perguntando o que tinha acontecido para ser dessa forma, e simplesmente cheguei a conclusão que esse era o parto que nós precisávamos, foi o nosso parto. Eu renasci no parto de Tito e renasci mais uma vez no seu parto. Aprendi que as coisas não precisam ser como idealizamos para serem perfeitas. O seu parto não foi como idealizei, mas foi lindo, tranquilo e perfeito.  Assim como no parto de Tito, eu queria muito que você nascesse na água e, mais uma vez, não rolou! Você nasceu na piscina, mas quase não tinha água. Eu queria muito sentir a bolsa estourando, mas se você nascesse empelicada eu ia amar! Mas a bolsa estourou quando saiu a sua cabecinha, e no meio de tantas sensações e tantas emoções, eu não senti o "ploc". Não foi como eu quis, mas ela estourou nas mãos de seu papai, que esperava ansioso para te receber, e foi lindo!
 
Me sinto privilegiada de ter conseguido trazer os meus dois filhos ao mundo de uma forma linda, respeitosa e natural. Foram duas experiências completamente diferentes, mas igualmente intensas e transformadoras. Contamos com a ajuda de uma equipe maravilhosa, agradeço imensamente a cada uma delas: Tarsila, Suzana, Carol e Dra. Sônia. Agradeço a presença de sua avó Ita, que sempre foi e sempre será essencial nas nossas vidas. Sua tia Milena, como boa companheira que sempre foi, mostrou também a ótima doula que é. Seu papai, apesar de ter ficado muito tempo cuidando da logística, sempre esteve muito presente, atento, carinhoso, cuidadoso e fez questão de ser o primeiro a te pegar. Obrigada Coisa, te amo! Não posso deixar de falar de Tito que, mesmo chegando um pouco "atrasado", fez a sua parte! Ele te encheu de amor e carinho, contou os seus dedinhos da mão e mostrou para a gente que amor não se divide, se multiplica!!! E claro, tenho que agradecer a você, minha pequena! Todos os dias eu olho para você e te agradeço! Agradeço por você ter sido uma danadinha, já nasceu me mostrando que tem personalidade! Agradeço por você ser tão tranquila e tão linda, por ter os olhos mais expressivos e cheios de amor.
 
Quando seu irmão nasceu eu escrevi isso para ele: "Nunca imaginei que caberia tanto amor dentro de mim. Um amor diferente, puro, tão forte que dá nó na garganta. Um amor indescritível, que tantas pessoas tentaram me descrever e que eu, da mesma forma, tento descrever sabendo que estas palavras não serão suficientes. Prometo, filho, que vou passar a nossa vida inteira tentando fazer você entender o tamanho desse amor." Filha, acredite que você trouxe mais amor ainda para as nossas vidas! Não temos como medir nem como explicar, apenas sentimos. E seguimos com a promessa de tentarmos fazer vocês  entenderem o tamanho desse amor. Te amo, minha moreninha.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

O parto de Tito


Dia 19/09/11 acordei bem, como em todos os dias anteriores. Estávamos com 39 semanas e dois dias e não estava sentindo nada de diferente. Pela manhã tive uma consulta com Dra. Sônia e ela decidiu fazer um toque. Resultado: 0cm de dilatação, bebê alto, colo grosso e posterior. Ela disse que provavelmente demoraria mais alguns dias, mas que isso não é uma regra! Quando saí da consulta liguei para o seu pai e falei que ainda ia demorar! Depois sua avó e sua dinda também ligaram querendo saber novidades! Eu disse para elas que ainda ia demorar! Todos estavam ansiosos, mas ninguém estava desesperado (eu acho), afinal eu "não estava com cara de quem ia parir logo". Fui para casa e passei o dia inteiro sem sentir nada de diferente. Nada mesmo! Só sentia as BH, que desde os 5, 6 meses já me acompanhavam, mas agora estavam bem mais frequentes, é claro! À tarde fui tomar um banho e como sempre fazia, cantei para você:
"Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco..."




No final do dia seu pai chegou do trabalho, comemos alguma coisa e ficamos de bobeira. Lembrei (e enchi o saco) que ele ainda tinha que pintar a luminária da sala. Já fazia alguns dias que eu lembrava (e enchia o saco) que ele tinha que pintar a luminária. Esse dia ele resolveu pintar a luminária! Fiquei até umas 21h e pouco com ele e resolvi ir deitar, estava morrendo de sono. Acordei umas 22h e pouco com uma pontada bem levinha. Seu pai já estava dormindo e eu nem falei nada com ele. Voltei a dormir e acordei de novo com outra pontada levinha. Olhei no relógio, acho que eram 22:30h. Cochilei de novo e outra pontada. Olhei de novo no relógio e tinham passado 10 minutos. Achei melhor levantar, já que não ia conseguir dormir mesmo. Fiquei na sala viajando, pensando em um monte de coisas, a cabeça a mil. As pontadas foram ficando cada vez mais fortes. Eu respirava, caminhava, mexia os quadris, agachava. Definitivamente eu tinha que me movimentar durante as contrações, era muito incômodo ficar parada. A cada contração eu tentava procurar a melhor posição e sempre me preocupava com a respiração, lembrava das aulas de yoga. Eu ainda não estava acreditando muito no que estava acontecendo, achava que poderiam ser só os pródomos. E as contrações foram ficando mais intensas, mais frequentes. 1:20h da madrugada eu peguei um papel e comecei a anotar os intervalos das contrações. Elas estavam meio loucas, às vezes 7, 6, 8 e algumas com 4, 3 minutos de intervalo! As contrações foram ficando mais intensas ainda e umas 4h eu acordei seu pai:
- Coisa!
- Oi! - assustado
- Eu acho que estou em trabalho de parto!
- Meu Deus! Desde que horas?
- Umas 22h e pouco.
- Por que não me acordou antes?
- Por que eu não tinha certeza se era trabalho de parto, e sabia que você ia querer acordar todo mundo!
- Já ligou para Dra. Sônia? Já ligou para sua mãe? Já ligou para Chenia?
- Calma, Exídio. Eu não liguei para ninguém ainda. 


Anotação das contrações

Nessa hora me deu uma dor de barriga e eu fui para o banheiro. Seu pai ligou para Dra. Sônia e ela perguntou como eu estava, me lembro de ouvir ele dizendo que eu não estava mais aguentando de dor, ele mal sabia que era só o começo. Ela pediu para falar comigo, mas eu não consegui dizer muita coisa. Depois, ela falou com ele de novo e disse: "Olha Exídio, consegui contar mais ou menos o intervalo de uma contração para outra e a duração, ela está realmente em trabalho de parto. Estou indo!". 


Sol nascendo na nossa janela, hora que o papai acordou

Voltamos para a sala e continuei me mexendo durante as contrações. Aliviava muito ficar apoiada no parapeito da janela, movimentando os quadris. Nos intervalos eu ficava parada, concentrada, só esperando a próxima contração.



Menos uma contração

Não me lembro de ter visto ele ligando para sua avó e para Chenia, mas sei que ele ligou logo depois de ter falado com Dra. Sônia. A primeira a chegar foi a sua avó Ita, acho que ainda não tinha dado 7h.


Cafuné da vovó Ita


Abraço que acalma

Logo depois chegou Chenia, a nossa doula. Conversamos um pouco e minha mãe resolveu sair para comprar algumas coisinhas e a piscina, pois na última consulta Dra. Sônia tinha dito que a dela não estava muito boa. Neste intervalo a Dra. chegou e trouxe a piscina dela, acho que tinha mandado ajeitar. Ficamos batendo papo, Chenia começou a fazer umas massagens. Eu estava meio desorientada, a partir daí já não lembro de todos os detalhes.


Massagem de Chenia, carinho da vovó e companhia de Lola


Descanso na bola de pilates

Dra. Sônia pediu para fazer um toque: 4cm de dilatação, colo posterior, bebê ainda alto e dorso à direita. Ela mediu também os seus batimentos cardíacos e estava tudo ótimo com você.


Batimentos cardíacos

Me lembro dela ter dito: "Tai, o que faz a dilatação aumentar é o movimento. Você não pode ficar parada. Por que não vão fazer uma caminhada na praia? Eu tenho umas coisas para resolver no consultório, mas não  demoro."
Coloquei um vestido e umas 11:30h fomos eu, seu pai, sua avó e Chenia para a praia. Tive contração no elevador, na garagem e várias no carro. As do carro foram as piores. Paramos em uma praia bem vazia aqui em Amaralina, colocamos nossas sandálias embaixo de um barquinho na areia e fomos caminhar. 


Energia boa que vem do mar

Quando vinham as contrações eu me agachava. Aliviava ficar de cócoras, assim melhorava muito!


Menos uma

Eu e seu pai acabamos nos afastando um pouco e ficamos juntos, caminhando e sentindo cada contração. 


Com o papai

Abraço bom 

Para o meu joelho não machucar na areia colocávamos uma canga no chão. Uma hora alguém foi lavar a canga no mar e ela se foi, acho que pode ter sido para Iemanjá. Outra hora eu e seu pai estávamos caminhando e uma onda veio de surpresa e nos molhou. Passamos umas duas horas caminhando e pedi para voltar para casa, já estava ficando bem cansada.


O mar abençoando o nosso momento

Quando fomos pegar as nossas sandálias, percebemos que alguém já tinha levado!!! Meu Deus, como podem roubar uma grávida em trabalho de parto?
Voltamos para casa por volta de 13:30h e Dra. Sônia já estava nos esperando.
Tomei um banho quente e demorado, depois fiquei me movimentando, sentei na bola de pilates, agachava, fazia de tudo para amenizar a dor imensa que eu sentia na lombar. E o que me fazia sentir bem, muito bem, eram as massagens de Chenia! Nossa, aquilo era meio milagroso!


Massagem de Chenia

Até então a minha bolsa não tinha estourado e Dra. Sônia perguntou se ela poderia romper artificialmente e eu neguei de cara. Umas 16:30h ela me examinou de novo, resultado: 7cm de dilatação (uau!), mas o colo ainda estava posterior e você ainda estava alto. Os seus batimentos continuavam ótimos, e era muito bom saber disso. Acho que foi nessa hora que ela fez uma manobra para trazer o colo para a posição certa. Aquilo doeu muito!


Amor

Seu pai teve o maior trabalho para encher a piscina, foram muitas idas e vindas com baldes de água e para completar acho que ela estava vazando, aí mais trabalho ainda! Dra. Sônia disse que eu poderia entrar na água. Achei ótimo, fiquei feliz, pois tinha muita vontade e muita expectativa que você pudesse nascer na água, filho. Foi um momento de tranquilidade, de alívio. Chenia me fazia as massagens, sua avó jogava água quentinha nas minhas costas e cantava para a gente.



A presença dela foi muito importante para mim, e foi ótimo o modo como ela se comportou. Sempre discreta, me trazia força e segurança e ao mesmo tempo não invadia o nosso espaço. Fiquei cerca de 1:30h na água e as contrações desapareceram. Dra. Sônia sugeriu que eu saísse e só entrasse de novo mais tarde, pois não era legal que o trabalho de parto estagnasse.


Alívio na banheira

Nessa hora seu pai ficou mais colado ainda em mim. Ficamos rodando a casa inteira, e ele sempre segurando a minha mão. A presença dele me deixava mais segura, as palavras dele me deixavam mais calma. O que seria de nós sem ele, filho?


Tive contrações na sala, no quarto, no chuveiro. E sempre que vinham as contrações eu me agachava, era instintivo. E eu sempre chamava: Cheeeenia! E ela vinha fazer as massagens. Sua avó e seu pai bem que tentaram também, mas nada era como a massagem de Chenia. 
Lembro de terem me oferecido comida, mas eu não podia nem pensar em comer nada. Acho que durante todo o dia eu tomei só um chá de canela, comi uns gominhos de tangerina e umas rodelas de abacaxi. A única coisa que eu queria mesmo era água. Lembro de ter bebido muita água. 


O Sol já se pondo

O tempo foi passando, as contrações foram apertando e eu tinha a sensação que ia me quebrar ao meio. Lembro que falei para a sua avó: “Mãe, parece que tem alguém abrindo os meus ossos com a mão” e ela sorriu e disse: “Mas tem! É Tito querendo passar”. 
Mais tarde Dra. Sônia veio conversar comigo e falou de novo em romper a bolsa, disse que isso aceleraria um pouco o processo, que eu já estava há quase 24h em trabalho de parto. Conversei com seu pai e então decidimos autorizar. Ela rompeu e doeu um pouquinho. Na hora eu senti uma água quentinha escorrendo, olhei e estava bem clarinho. Fiquei aliviada de não ter sinal de mecônio, mas o que eu queria mesmo era ter sentido a bolsa rompendo naturalmente. Acho que toda mulher que sonha parir imagina um dia a bolsa rompendo. 
As contrações realmente ficaram mais fortes, e eu já estava exausta. Falei que não ia aguentar, que precisava de uma anestesia e que queria ir para o hospital. Dra. Sônia riu e disse que eu tomaria as decisões, que se eu quisesse, nós iríamos sim para o hospital e lá eu tomaria uma anestesia. E ela reforçou: “É isso mesmo que você quer?” e eu disse: “Não!”. Nessa hora todo mundo riu. Depois eu soube que ela falou com o seu pai: “Isso é normal, e é um ótimo sinal! Sinal que já está perto da hora!”. 


Será esse o nosso limite?

Seu pai achou que a trilha sonora estava muito tranquila e teve a idéia de colocar uma música mais agitada. Acho que ele escolheu Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga e deu certo, me deu um fôlego extra! Lembro que ele, vendo o meu cansaço, tentava o tempo inteiro me animar e até me chamou para dançar - eu devo ter feito uma cara muito feia nessa hora!



Papai ajudando

Continuamos andando a casa toda, mas já estava quase sem forças para ficar em pé, para ficar de cócoras. Eu precisava que alguém me segurasse, me carregasse. E esse alguém foi seu pai, que ficou o tempo inteiro comigo, filho. Nos olhos dele eu sentia que ele queria dividir comigo aquela dor que era só minha. E eu transferi parte dela apertando muito ele, e ele sempre me falando que eu era forte, que estava perto, que nós estávamos conseguindo.


Exausta e sem forças

Eu disse que queria fazer cocô e Dra. Sônia disse: “Ótimo, Tai! Pode fazer força, mas acho que não é cocô! É Tito chegando!”. E a cada contração vinha uma vontade de fazer força e de gritar. O grito me ajudava, trazia um pouco de alívio. 
Dra. Sônia viu que a sua cabecinha já estava aparecendo, todos ficaram animados e eu fiquei totalmente confusa. Ela sugeriu que eu colocasse a mão para sentir. Filho, foi uma coisa muito louca, muito estranha. Eu esperava sentir uma coisa rígida, e meus dedos tocaram uma coisa bem molenguinha. Na hora eu falei: “Ai! É mole! Eu não quero mais sentir!” e então ela perguntou se eu queria ver com um espelhinho e eu neguei também. Engraçado que quando eu imaginava o nosso parto eu sempre me imaginava querendo ver pelo espelho, querendo tocar a sua cabecinha coroada, e aconteceu tudo ao contrário. 
Entrei de novo na banheira, fiquei um tempinho e você que já estava coroando, subiu novamente. Nessa hora eu fiquei muito agoniada, não entendia porque quando eu entrava na banheira tudo regredia. Fiquei triste. Dra. Sônia disse que se eu quisesse poderia ficar, mas eu disse que não, que queria sair, que queria que você nascesse logo.


Exausta e ansiosa

Tentei ficar de cócoras, e não tinha mais força para me sustentar. Tentei ficar ajoelhada e também não aguentei. 


Em busca da melhor posição

Comecei a ficar incomodada e acabei fazendo o que não imaginei que faria: fiquei deitada e foi melhor assim. E você demorou filho. Não sei o tempo, mas a sensação era de uma eternidade. Será que essa demora foi por causa do seu dorso à direita? Por algum tempo você ficou subindo e descendo, e isso me deixou angustiada. Dra. Sônia achou que deveria intervir, e acabou empurrando a minha barriga. Na hora eu nem liguei. Eu sentia que você já estava bem perto, senti queimando tudo. Nessa hora seu pai já tinha deixado a máquina com sua avó e veio ficar bem pertinho, estávamos em uma sintonia muito boa. Conversamos muito sobre o parto durante a gravidez, e ele foi perfeito. Participou ativamente e intensamente de todo o processo, e isso foi essencial.


Mais algumas contrações e de repente, saiu a sua cabeça. Eu não quis olhar, não quis tocar novamente. E depois, muito rápido, em outra contração saíram os ombros e você escorregou. Eram 23:15h do dia 20 de setembro. Você veio para mim na mesma hora, não chorou, mas ficou resmungando baixinho. Nunca vou esquecer a sensação de abraçar o seu corpinho quente, grudado em mim através do cordão umbilical. Ainda éramos um só.


Seja bem vindo, meu filho!

Naquela hora não existia mais dor, mais preocupação, mais angústia, mais nada. Só existia o amor. O amor que eu achava que já era infinito quando você ainda estava na minha barriga. Filho, eu não sabia até onde ia o infinito! 



O maior amor


Eu e seu pai ficamos juntinhos com você, e esse momento durou uma eternidade. Não sei quanto tempo foi, mas a sensação foi de eternidade. Coloquei você no meu peito e você só me lambeu. Seu pai chorou feito criança, e ele tem o choro mais lindo que alguém pode ter. Eu não cansava de te olhar, de olhar para o seu pai te olhando! Nós três ali, naquele momento, éramos o suficiente para a nossa felicidade.




Reconhecimento


"Bem vindo meu novo ser
cercado de proteção
de tanto amor tanta paz
dentro do meu coração

É como se eu tivesse esperado
toda a vida pra te embalar"





A melhor sensação

A placenta saiu logo depois, e não me lembro de ter sentido dor. Depois de algum tempo Dra. Sônia achou melhor te examinar. Seu papai cortou o seu cordão umbilical e foram todos para o seu quarto para a Dra. te examinar. E da sala eu escutei o seu chorinho. Acho que você estava com um pouco de dificuldade para respirar, então ela pediu que sua avó segurasse a mangueirinha de oxigênio pertinho do seu nariz.


Papai cortando o cordão umbilical

Não demorou nada e logo você voltou para a mamãe. Ficou no meu colinho e ainda não quis mamar, mas continuou me lambendo. Filho, o seu cheiro era o melhor cheiro do mundo, seu pai disse que parecia um cheirinho de churrasco. Até hoje tenho flashback do cheiro (se é que isso existe). E fico feliz toda vez que esse cheiro vem na minha memória.


O cheirinho da mamãe

Seu pai e sua avó começaram a ligar para todo mundo. Logo depois seu avô Exídio, sua avó Licia e sua Dinda chegaram. Eles estavam ansiosos para conhecer a coisinha mais linda do mundo! 
Mais tarde me levantei e fui para o quarto para a Dra. suturar a laceração que eu tive. Incomodou um pouco, mas nada me tirava daquele estado de graça. Seu pai ficou te segurando, com o maior jeito, lindo! Parecia até que já tinha segurado um recém-nascido. E abraçadinho com você ele subiu na balança para te pesar: 2.900kg. Tomei um banho e ficamos na cama, te admirando, te amando. Ali você mamou. Mamou como se já tivesse feito isso antes. E assim, juntinhos, ficamos nós três. Mais tarde me bateu uma fome digna de quem tinha passado um dia inteiro sem comer! Contrariando todo mundo eu levantei e sentei na mesa para comer pizza! Eu merecia! Já passava de 2h da manhã e me dei conta que já era dia 21, o dia do meu aniversário. Nem nos meus melhores sonhos poderia imaginar que ganharia um presente de aniversário tão lindo! Você foi o meu melhor presente, Tito!


O leitinho do amor


O melhor presente

Sem dúvida foram as 25 horas mais intensas da minha vida. Senti muita dor, achei que não ia suportar, me chamei de louca. Mas tudo isso passa, e só ficam as coisas boas. Eu queria que algumas coisas tivessem sido diferentes. Se pudesse voltar atrás teria me alimentado melhor para ter mais energia no expulsivo, não teria aceitado o rompimento artificial da bolsa e teria esperado mais um pouco na piscina. Mas, mesmo assim, tenho muito orgulho da forma que escolhemos para te receber. Tenho muito orgulho de você, que fez o seu trabalho direitinho e já provou que é retado! Tenho muito orgulho do seu pai, que aos poucos foi comprando a minha idéia e se tornou o maior defensor do parto natural. Ele é um companheiro no melhor sentido que esta palavra pode ter, e eu amo isso nele. E pode ter certeza, filho, que o amor que eu sinto por ele hoje é bem maior e mais maduro. E sem modéstia, tenho orgulho de mim também. Sei que fui forte e guerreira, mas sei também que isso foi só o começo.


Meus dois amores

Nunca imaginei que caberia tanto amor dentro de mim. Um amor diferente, puro, tão forte que dá nó na garganta. Um amor indescritível, que tantas pessoas tentaram me descrever e que eu, da mesma forma, tento descrever sabendo que estas palavras não serão suficientes. Prometo, filho, que vou passar a nossa vida inteira tentando fazer você entender o tamanho desse amor.